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Diário de uma Pandemia

Diário de uma Pandemia

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Março 29, 2020

Paulo Pinto

Dia 16, domingo, 29 de março. 5962 casos confirmados, 119 mortos. A notícia do dia é a da morte de um jovem de 14 anos, que gera dúvidas e interrogações. Pelo que percebo, tinha psoríase - logo, sistema imunitário debilitado - e não é certo que tenha morrido por causa do vírus. De resto, continua a vertigem dos números. O "Re-pug-nan-te" do primeiro-ministro acerca das declarações do ministro holandês continua a fazer furor, sobretudo em Espanha. No Brasil, a irresponsabilidade do presidente atinge novos máximos. Agora foi o twitter que apagou os seus vídeos, por contrariarem as recomendações sanitárias básicas. Há desfiles de gente - abastada - nos automóveis a apoiar o presidente e a apelar às pessoas para irem trabalhar. Vejo uma imagem de um a quem atiraram bosta de cavalo. Que país surreal.

Começo a ter dúvidas sobre este blog. Parece inútil e sem sentido, afinal, não escrevo nada de original e torna-se penoso escrever banalidades. Aliás, escrevo na manhã do dia seguinte, à noite fico verdadeiramente bloqueado e incapaz de escrevinhar duas linhas. De início parecia boa ideia e senti algum entusiasmo em voltar à blogosfera após anos de inatividade. Escrever de forma ponderada e sem aquela volatilidade das redes. E falo do FB, que twitter, então, é demasiado fugaz para mim. Mas agora constato o oposto. No FB há "reação", ainda que não passe de um "like" de duas  pessoas. Aqui,  não. Mas,  afinal, o objetivo é mesmo esse. Penso, embora sem grande sucesso, no que será importante registar. Dados? impressões pessoais? Quem sabe? E ocorre-me a irritação - tão recorrente - ao ler documentação portuguesa da Ásia do século XVI. Tanto papel e tinta gastos em informação inútil, 500 anos depois. Um só homem daqueles podia ter registado pormenores da vida social, económica,  política, de costumes, de tanta coisa que ignoramos hoje. Há dias estive a ver o arquivo digital da Cinemateca. Registos de Sintra do início do século XX. Dececionantes, mostram o Palácio e umas futilidades, uns emproados de cartola e paisagens, coisas que quase podiam ter sido filmadas há 100, 50 ou 10 anos. Era o que se achava importante à data. As imagens mais interessantes de ver hoje, porém ocasionais e fugazes, são as dos populares que passam em segundo plano, ao fundo, nas ruas, e que olham pasmados para a câmara. Saloios e saloias.

Onde estão os saloios e saloias desta pandemia?

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