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Diário de uma Pandemia

Diário de uma Pandemia

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Abril 07, 2020

Paulo Pinto

Hoje é o 25º dia, 7 de abril. 12442 casos,  345 mortes. Et la nave va. A notícia do dia é a do internamento do PM britânico nos cuidados intensivos. Pobre tolo. Parece que, afinal, não cometeu a imprudência inicial por galhardia ou inconsciência, mas sim por indicação dos seus conselheiros científicos. Por cá, o PR é entrevistado e diz o costume (o que pode dizer), deixando umas indiretas e nas entrelinhas sem ser direto. Diz que não está imunizado e uma qualquer jornalista imbecil interrompe-o com um interrogação sobre "se corre riscos". Enfim. Fala numa "luzinha ao fundo do túnel" mas enrola logo de seguida - felizmente a tempo - a dizer que abril é mês para preparar maio. Uma forma de ir preparando as pessoas para a inevitabilidade de ficarem mais um mês encerradas. Discute-se se já se atingiu o "pico" ou não. Uma discussão um bocado estéril, porque foi anunciado paa fim de março, depois maio, depois "planalto" e agora um "queres vez que já passou e não o vimos?". As pessoas têm que que se entreter de qualquer forma, não é? O impacto na economia, nos empregos e na sobrevivência começa a dominar os noticiários, com lay offs sucessivos e dúvidas sobre como vai tanta gente pagar as contas. Acumulam-se as notícias sobre setores afetados, há pouco eram os promotores de espetáculos. Ontem Marcelo esteve com os banqueiros e saiu "animado". Eu queria era ouvi-lo dizer que "recebeu garantias". "Animado" e palavras redondas sabe a muito pouco. Mas quem esperará que seja a banca a pagar a crise, não é? Se nunca pagou nenhuma. Melhor dizendo: quem a obriga a pagar o que quer que seja? Li acerca da falácia das "linhas de crédito". Adiar pagamentos não parece ser grande solução para quem deixa de receber. Significa apenas acumular dívida. Não sei.

De manhã fui às compras e à farmácia. Tudo tranquilo. Mas continuo a achar demasiados carros para o que esperaria. E demasiada gente a acelerar, a apitar e a entrar nas rotundas sem aviso nem cuidado. Amanhã tenho videoconferência de trabalho.  Finalmente, falar e ver caras de gente que trabalha no mesmo comprimento de onda que eu e que não acha que estou de férias.

Abril 06, 2020

Paulo Pinto

Dia 24, 6 de abril. É segunda-feira. 311 vítimas mortais, num total de 11730 infetados. Os números começam a parecer semelhantes e indiferentes. Das dezenas para as centenas e milhares, e agora na ordem das dezenas de milhar. Há abrandamento e continua-se a falar na "curva". Não se sabe ainda o que significa e se é real. Parece, contudo, haver alguma unanimidade em torno da ideia de que as cifras, muito longínquuas do que se passa em Espanha e Itália (para nem falar dos EUA), ficam a dever-se à imposição do isolamento em data precoce. É também o que menciona a imprensa internacional. Resta saber se o SNS vai aguentar o que ainda aí vem. Há muitos relatos de falta de equipamento, de máscaras e luvas, há denúncias de atrasos e de carências. Parece a todos sensato de que médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, são a "linha da frente" que não pode colapsar. Não ouvi falar de situações de rutura. A ver vamos, parece haver algum otimismo reservado. Pelo menos, é o que transparece nas redes sociais.

Segunda feira é dia de retoma de rotinas de trabalho. Comecei a fazer um puzzle no meio da sala. Um razoavelmente grande, de 1500 peças. No fim de semana praticamente não peguei em trabalho. No sábado estive todo o dia de volta da mesa e das peças. Focar a concentração, aliviar a presão durante algumas horas. Hoje foi a retoma. Tudo atrasado. Não sei se é atrasado, é parado. Não sei se tenho tempo suficiente para compensar os atrasos, simplesmente porque desconheço se os projetos ainda estão de pé e se são válidos. Deadlines? Prazos? Tudo difuso.

Abril 05, 2020

Paulo Pinto

Dia 23, 5 de abril. Portugal regista hoje 11278 casos, 295 mortes. Continua a dança dos números e da análise do seu significado. Não há outra notícia a percorrer os vários canais televisivos nem as redes sociais. Evolução, previsão, impactos e efeitos. Empresas em lay off, muita gente em situação precária e incerta. Muitas opiniões, algum humor. Saturação q.b. O meu filho terminou hoje a quarentena. Já pode lavar a loiça como o comum dos mortais.

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Abril 03, 2020

Paulo Pinto

21º dia, 3 de abril. Portugal tem 9886 casos de pessoas infetadas e 246 mortos. Hoje, a maré mudou da análise dos números para as máscaras. Aparentemente, a OMS alterou as recomendações. Ou, pelo menos, é o que diz a imprensa. Há alguma (para não dizer muita, mesmo) confusão acerca do uso de máscaras, se é recomendado ou não. O que as pessoas não parecem perceber é que o uso de máscaras não substitui os cuidados recomendados de afastamento físico, higiene escrupulosa e vigilância sem reservas. E que o seu uso generalizado pela população é impossível, pela indisponibilidade e preço. E de resultados duvidosos. Numa palavra, quem usa máscara julga-se protegido. Hoje vi várias no supermercado. Seriam máscaras novas? Será que foram descartadas no fim da jornada? Ou as pessoas simplesmente metem-nas "a arejar" e voltam a usá-las? É como as luvas. Quem as usa, tende a baixar a guarda e a desleixar-se na lavagem das mãos. É o que me parece. Posso, naturalmente, estar a ver tudo mal. Da mesma forma como posso estar a ser preconceituoso quando viro as costas ao Sexta às Nove, hoje na RTP-1, depois de 3 minutos a ver a Sandra Felgueiras a mandar bitaites sobre o assunto, comparando Portugal à República Checa, assumindo aquele como um caso de risco e de desastre e esta como exemplo de sucesso, porque cá não está generalizado o uso de máscara, mas ali, sim. Critérios  duvidosos,  comparações deslocadas do contexto, escolha de exemplos à la carte. O que parece importar é "provar" que estamos à beira da catástrofe, no trilho de Espanha e de Itália, em vez de seguirmos os avisados e sábios exemplos da República Checa e da... Bósnia-Herzegonina. Fala também do Japão e da Coreia, mas apenas com a bitola do uso de máscara, sem mais. É mau demais. Em contraponto, acabo de ler isto, do Bernardo Pires de Lima. Pena que haja tanta mais gente a ver a RTP-1 do que a ler o DN.

Abril 02, 2020

Paulo Pinto

Dia 20, 2 de abril. 9034 casos confirmados, 209 mortes. Ainda nada de luz ao fundo do túnel, além do esmiuçar dos dados, da evolução, das taxas e dos gráficos, a tentar apreender o que significam e como se projetam para o futuro. Temos estado de emergência por mais duas semanas e a notícia do dia é as restrições à mobilidade entre os dias 9 e 13, o fim de semana de Páscoa. Não será permitido sair do concelho de residência, com poucas exceções. As redes enchem-se de comentários, como localidades divididas entre dois concelhos (Algés, se bem me recordo). E há quem já fale em limitação das liberdades e quem relembre o "V de Vendetta". Tudo a ver. As minhas preferidas, pelo ridículo, são as crónicas do JA Saraiva no Sol e o JM Tavares no Público. O primeiro escreveu uma crónica alucinada sobre os "sinais" que antecederam a pandemia e o segundo, exigindo uma data para o fim da crise. Pior do que as ideias - ainda que idiotas - é a falta de bom senso. Quem é cronista e vive dos textos que produz tem que puxar pela imaginação e já restam poucos ângulos de análise da coisa. Piadas,  memes, vídeos, montagens, anedotas, dichotes,  montagens caem em catadupa no FB. A par de emails de praticamente toda a entidade e empresa a manifestar solidariedade e o seu contributo. E conselhos, os habituais. Stay Safe. Vem aí chuva em breve, diz o IPMA.

Abril 01, 2020

Paulo Pinto

1 de abril, dia 19. Dias e dias que passam lentamente. Hoje há 8251 pessoas infetadas, 187 mortes. Dia de frio e chuva, o que não anima ninguém. É quarta-feira, mas não se dá por isso. Mais uma (pequena) desorientação, a juntar a tantas outras. O meu filho cumpre hoje o 10º dia de quarentena, após a chegada do Dubai. Nada de sintomas. Domingo acaba. E depois? "Depois" é toda uma outra dimensão, que não interessa muito por enquanto. Falo ao telefone com um colega meu e não fico propriamente animado perante o catastrofismo que denuncia, e ainda menos com o descrédito que revela perante as autoridades sanitárias e governativas. Nem os números animadores de Portugal, em comparação com o que se passa lá fora, parecem demovê-lo. Nem o reconhecimento internacional. "É tudo à portuguesa" é o comentário que retenho. Todos nós daríamos excelentes ministros da saúde e diretores da DGS, estou certo. Sobretudo se soubéssemos há um mês o que vinha aí. Sentados em casa, confortáveis e a engordar, debitamos sentenças e bitaites. É o que fazem jornalistas, comentadores e opinion-makers. Sem outro tema que não este, sem tricas políticas para esmiuçar, entretêm-se a liofilizar gráficos e números, previsões e achismos. No noticiário da noite, José Alberto Carvalho fez mais ou menos isso, num raciocínio cheio de "parece que" e "possivelmente" para não chegar a lado nenhum. Não ouvi factos, só "dá ideia de". O governo prepara-se para estender o estado de emergência por mais duas semanas. As incógnitas são muitas e em muitos campos. Viver na incerteza está na ordem do dia, algo a que não estávamos nada habituados.

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